Por Henrick Peres.

No mundo atual, com a internet sendo acessível em praticamente qualquer lugar do mundo, algo que ganhou uma visibilidade maciça nos últimos anos foram seriados de televisão. Sempre foram famosos, tanto que muitas das sitcoms de sucesso dos anos 80 até hoje são reprisadas tamanho a sua legião de fãs. Mas o boom da internet permitiu que pessoas de todo o mundo acompanhassem diferentes programas. E mesmo assim, nunca gostei do formato.

Poucas vezes decidi reservar ao menos uma hora da minha vida para conferir o piloto de uma série. E todos sabem que a chave de uma boa série é ter um bom piloto. Se o piloto não for bom, o que vai fazer eu ter vontade de ver o próximo episódio? Justamente por isso não perco tempo assistindo pilotos… a grande maioria deles tentam ser superficiais, te vender uma idéia das formas mais absurdas possíveis, e poucos, pouquíssimos mesmo o fazem com tamanha felicidade.

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Shawn conta a última história de Psych.

Eis que em janeiro de 2012 me veio a vontade de ver Monk (a comparação aqui seria inevitável). Um detetive atrapalhado, ranzinza, mas que no fundo, sofria não só de transtorno obsessivo compulsivo como também da profunda solidão pós-assassinato não resolvido de sua esposa. Me comovi com oito excelentes temporadas de uma série que misturou drama e comédia tão bem que até então não tinha outro projeto para comparar com ela. Vi Monk na saudosa época do RMVB, aqueles vídeos com legendas embutidas e baixa qualidade que nos entretinha por horas. E um dos bônus que os episódios de Monk trazia consigo eram comerciais de uma novidade do canal USA, a série Psych, que nos EUA ia ao ar todas as sextas-feiras, logo após um episódio inédito de nosso detetive com TOC.

Nunca dei bola para estes comerciais que ficavam no fim dos episódios de Monk, até porque as pessoas nem sequer o legendavam, e também nunca havia me dado o trabalho de parar e prestar atenção no que aqueles comerciais promoviam. Ao terminar Monk, melancólico e soluçando de felicidade por um excelente e digno fim para o personagem que amei conhecer, eis que procurava por algo tão bom e com a mesma fórmula do que acabara de ver. Procurei. Procurei. Procurei. E nada.

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Lassie consola Shawn em um de seus últimos momentos juntos.

Sem nada pra ver, comecei a rever os primeiros episódios de Monk… e como queria dissecar tudo dos episódios a partir desta reprise pessoal, no que eu comecei a prestar atenção? Exato! Eis que no primeiro comercial de Psych que eu realmente paro para prestar atenção, estão dois amigos em um programa de jurados, cantando desafinadamente e beirando ao ridículo… mas a cena era inegavelmente HILÁRIA. Resolvi dar uma chance à série, pausando Monk por alguns dias… era o que eu esperava. Por alguns dias. Mas até hoje não apertei o play de volta.

Como disse acima, o Piloto é a CHAVE para uma série de sucesso. E Psych é um dos raros casos que me fez assistir a mais de uma hora corrente sem pausar uma única vez o episódio. Com ação ligeiramente engraçada, diálogos rápidos e uma interpretação magistral de cada um dos atores, a série me ganhou em seus dez primeiros minutos. O fato de eu estar novamente tentando resolver um caso com o protagonista automaticamente fez com que eu reservasse uma hora DIÁRIA para acompanhar o que Shawn Spencer (James Roday, as mina pira) e Burton Guster (sem palavras) me reservara para aquele dia.

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Shawn e Gus discutem seu último caso.

Dois anos se passaram desde que dei uma chance a série, dei INCONTÁVEIS risadas, mas assim como Monk, chegou a hora de eu me despedir de uma série que novamente me ganhou pelo caráter de seus personagens e pelos excelentes roteiros entregues durante outras oito temporadas. E como nenhuma despedida é fácil, o criador de tudo isso, Steve Franks, inverteu o processo e resolver deixar tudo fácil, por mais que doa dizer adeus.

No começo de “The Breakup“, após todas as mudanças que presenciamos nas vidas dos protagonistas neste curto último ano, somos apresentados à um Shawn que quer amadurecer, mas que têm medo de complicar sua amizade com Gus, seu grande amigo, aquele camarada que dividiu o primeiro cocô, aquele camarada que esteve ali em todas as tentativas que os dois sofreram de assassinato, aquele cara que se ofereceu a abrir mão de tudo para que seu amigo contasse a verdade à Chefe de polícia só para vê-lo feliz ao lado da mulher que ama.

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Betsy dando mais um banho em Shawn desde sua chegada.

Vendo que não está mais sendo útil à polícia desde a chegada da nova detetive-chefe, Shawn percebe que é hora de pegar o boné e seguir com sua vida em frente… por isso, ele decide ir morar com Jules, que se mudou para São Francisco por conta de uma nova e promissora oportunidade de trabalho. E apesar de todas as oportunidades que teve para contar sua decisão ao amigo enquanto resolviam seu último caso juntos, Shawn não toma coragem pra isso e acaba partindo sem se despedir de ninguém. Interessante a frustração e desamparo que sentimos junto com Gus quando ele percebe que seu amigo o deixou após todos estes anos juntos.

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Gus acha mais um corpo, e você sabe o que vêm a seguir…

Talvez aí esteja a mágica do episódio. Difícil imaginar um Shawn maduro, e justo quando ele decide tomar uma grande decisão, acaba fazendo-a da maneira errada por não ter prática nisso. Interessante vermos também o quão incrível é Steve Franks. Com os últimos episódios sendo de medianos a pouco regulares, ele em apenas 48m. consegue fechar o arco de simplesmente TODOS os personagens de uma forma perfeitamente convincente, dando tempo até de revelar quem é o famoso Dobson, detetive mencionado desde a primeira temporada em que todos colocam a culpa, mas que nunca deu o ar da graça até então (e acredite, a espera para conhecê-lo valeu MUITO a pena).

É claro que ao longo do caminho irão rolar lágrimas, principalmente nos 15 minutos finais, onde termina-se de amarrar o cadarço do sapato. É também interessante ver o quanto a tal decisão de Shawn afeta a vida de todos. Pudemos sentir um pouco disso em “The Polarizing Express“, da quinta temporada, dirigido por James Roday. Lá, acompanhamos Shawn imaginando como estaria a vida de todos ao seu redor se ele não tivesse voltado a morar em Santa Barbara. Aqui, acontece o mesmo, mas não é imaginação, é realidade. Muita coisa acaba acontecendo e mudando por conta de sua atitude. Tais coisas acabam acontecendo para o bem, e outras para o mal.

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Gus chora ao tomar uma decisão.

E finalmente, temos o desfecho, que acaba não melancolicamente, mas sim com mais um caso para nossos protagonistas correrem atrás, desta vez envolvendo seus próprios interesses. O espírito da série está o tempo todo ali. Nada de despedidas desproporcionais as personalidades dos protagonistas. A coerência aqui conta muito pra deixar este final na história dos melhores finais da história dos melhores finais de séries.

E o fato de ver minha série-bebê ser homenageada no fim (Shawn e Jules + São Francisco? Qual é, filho… você sabe do que eu tô falando) fez para mim o fim valer um bilhão de vezes mais do que pra mim ele já estava valendo. Afinal, nada mais justo que a série que me fez ver Psych ser lembrada cinco anos após seu fim.

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Shawn e Gus abraçam Jules e Chefe Vick.

Obrigado Steve Franks por criar este mundo em que, por uma hora, toda semana, esquecemos um pouco de nossos problemas e nos preocupamos apenas com os de Shawn e Gus, que agora estão seguramente guardados como protagonistas da série que melhor retratou a história de um detetive vidente que mora em Santa Barbara. Até porque ela foi a única.

Obrigado Psych! Para sempre em nossos corações!

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